A ilha de um eu perdido

Marianna Perna por Renata Terepins, 2017.

Corri por entre labirintos até que
meus pés fossem as próprias pedras.
Eram espelhos, eram desilusões.

Tudo se esvaiu como o lodo que reluz
na manhã seguinte à partida.
Barco sem âncoras.
Só havia círculos, só havia ruídos
Gigantescamente o tempo presente
humilhando-me ao falar do sol.
Voltas em torno de si,
no penhasco de mim mesma.

Como eu caminhei. Me perdi.
Tentei ser tantas outras, me refazer
Esquecer meu próprio esquecimento.
Uma nova face, novos cumes
Orgasmos
Ser apenas lua.

Mas ele me seguiu, como fazem as sombras.
Preso às minhas costas, uivava
Na distante cartografia da agonia.

As outras que eu fui
(Que pensei ser, quis ser
Mas elas não me perdoaram
Não me entregaram seu veludo)
Tinham sempre o mesmo destino
O mesmo abismo.
Afogadas, todas, em suas cáusticas feridas.
Ensurdecedoras ruínas de um ser esquecido.

Save me save me save
Volto ao útero. Save me.
Sair do penhasco de mim mesma.

Sim, tudo se perdeu.
Pereceu.
Em ti agora faz noite,
ainda que não queiras ver.
E em mim ela é maior.
Transcende a própria casa –
Já não há janelas, corredores
molduras, estrelas, ou banheiras.
Tudo é ausência mofada.
Além da luz ou das tábuas.
Só restou um eu que não conheço
Em uma ilha que é centro
Que não me deixa.
E não me venha falar sobre ser mulher
Eu já nem existo.

(Já falei para eles nos deixarem,
já, já…já quebrei todos os espelhos.)

Natum ante omnia saecula.

Era sempre tu, sempre tu
Sempre a mesma lança,
o mesmo golpe.
Como pude ser tão tola?

Esta ilha talvez eu a tenha desenhado
Do penhasco, do encontro de todas as vidas.
O que é isto que chamam de vida, de morte?
Em minha ilha é sempre noite,
Sempre vazio, sempre mar sereno.
Aqui eu sou uma totalidade.
Observo os barcos, sei que sou mais.
(Será o início de uma lembrança?)

Aqui escuto a música da permanência
Resistência até não lembrar mais do Tempo. Até que tudo apenas não seja
E torne a ser mar.
Não sei se chama morte, travessia
Mas há de ser um bom mergulho.
Pelas mãos que me trouxeram até aqui
Pelas águas em vai e vem.
Para romper o círculo de ilusões.
Estar fora do tempo, fora do tempo
Fora, fora, fora do tempo

Talvez agora, que está fora
do que já fui
Eu possa me enxergar…

(Som do mar…)

Mater Suspiriorum

Marianna Perna em cena, 2018.

Espirais do ar se fazem fogo ao tocar a pele.
A pele não costurada que abriga o sonho.
O sonho de cada noite envolto em névoa não linear.
A dança da imaginação cria asas sobre o não nascido.

A dança fora é um pequeno grão da dança contínua de dentro. 
O olho de dentro, o olho da pele.
All is well, as long as we keep spinning.

Eu rodopio em busca do silente, o repouso no fundo
de todo movimento, de todo som.
O sonho primordial que alcanço com os olhos de dentro.
Há o silêncio em tudo, e eu danço o que não tem nome.

O círculo sem fim do existir-se em tudo.
Tempo não linear onde sou tudo, desde sempre,
cobra que engole o rabo.

Minhas palavras afogadas.

SP, Brasil, 2018.

Não sou este nome que me reveste, nem também as fatigadas tentativas de compreensão.
Nada disto me pertence e não me importa enquadrar minhas palavras em um esquema de ordenação.
Prosa, poesia, teatro, ensaio — who cares?
São apenas palavras, de toda maneira, nem a vida são…
Apenas palavras. E eu não sou esse ser que as cria. No entanto, sou; vivo e as crio sem parar. Revivo a vida em imagens, crio-as e recrio-as em gesto, na ânsia por capturar alguma eternidade, rastro de algum lampejo de compreensão.


Se me dedico a escrever — necessito como respirar, as imagens são meu ar — é simplesmente porque piso sobre ausências.
E são todas escorregadias.
Falta algo, falta fibra.
Em algum lugar de mim eu já não vivo, porém tampouco morro.
As palavras já cessando de chegar à praia. Escassas.
Alguma parte minha não conheceu a vida e agora a tenta imaginar, em busca de oxigênio, num esboço de sentir um pulso maior que a vítima da necessidade de inventar.
Um fardo que não deixa se viver uma vida real, sem personagens.
Pois me tornei uma personagem afogada de mim mesma e não posso viver apenas. Apenas viver.

Mas será que existe mesmo isso de vida real e de diferença entre o real e o imaginado?
Não será, talvez, tudo inventado — inventado até que pareça real?
Em algum lugar não seríamos, talvez, todas vítimas deste querer pisar outro chão — um sem ausências, de raízes?

Deste querer que nos tira de um viver ausente rumo a outros e nos dá a possibilidade de assim recriar mundos além de si mesmo?
Porque poemas são tentativas de morte; não são, porém o seu gesto. Talvez por isso sejam, afinal a vida…

Encontrei-me com a prosa.

Marianna Perna, Peru, 2014.

Quantos trens não vi passar.
Quantas plataformas.
Às vezes cheias, às vezes tão silenciosas.
Quantas despedidas não me atravessaram, brutais. Mas de alguma estranha forma também emprestando-me seus olhos para que algo mudasse.

Ainda assim, um quente na garganta, a ânsia pelo desconhecido prontamente abafada, sem nem poder gritar-se no mundo. Sem poder mostrar sua face linda e louca aos olhos cheios de medo que encontrasse pelas avenidas.
Como sempre, chegava em casa querendo registrar — registrar algo tão terrível e grandioso, tão maravilhoso que eu descobrira, mas que mal poderia saber o quê era.
Impossível transbordar em palavras.

Como conceber um novo sentido;
como transcender os monstros sagrados que pairam,
que nunca nos deixarão?
Como cortar as fitas da banalidade, que me querem impedir de sentir e de acreditar?

Sem oxigênio nada pode florescer; de pronto só poderia é procurar os sons, as melodias, as vozes, as frases, as palavras alquímicas por onde escorrer a agonia.

Pois, se eu escrevo é para desafogar os caminhos tortuosos e inscrever a memória de algum desígnio, qualquer que seja. Despretensioso. Apenas saber que por aqui estive: respirei, contemplei, por vezes me desesperei; sobre a morte muito pensei e, sobretudo, inumeráveis fins presenciei. São as pernas que não cabem em si, a vida que não basta para se fazer boa, porque, pobre dela, se fez tão estragada. Molestada. Mas segurarei suas mãos até o final.

Poema da dissolução

Quando chove
Ah, quando chove
eu não sei
meu coração escorre

É tão bonito
Tanta água
Brilho na árvore
Gotinhas como brincos

Quando chove
Quando chove
Sou olhos de lágrima
Sou o céu que cai
Sob a casa que eu era
E agora deixo rio-ir…
Braços abertos
Molhados
Sou uma emoção
Que se umedece
Indizível poesia correndo nas valas
Escorre em mim
Nem corpo eu mais tenho
Engolida por um amor-enxurrada.

Quando chove
Eu só vejo os olhos de Netuno.

Fibras da memória

Quem me trouxe aqui,
já tão ardida de fuga?

Sem me conhecer.
(Não há cais para o fim do mundo.)
A minha renúncia.
Porque talvez já seja tarde demais
E as feridas, profundamente entrelaçadas
Ao ser que não conheço.
Este, da cara dura, de vincos.

Abro mão de ti, meu ódio-amor, vida que tanto quis conhecer.
Estarei mais próxima de minha carne.

E isto dói, dói fundo, dói sempre.
Arrancar a ânsia de vida à força
do tecido-coração.

Mas não se anseia vida em meio à impossibilidade;
apenas vive-se com os pés no chão, um olhar imune.
Pela terra se passa. E se torna ao pó dos dias.

Desencontro ainda cotidiano

Empire State Building, NYC, 2013.

Poesia. Ver o dia sob novos ângulos. A tarde contida em mim. Mar de carros corredeiras não me limita o passo. Cimento ainda cotidiano. As asas são meu abraço contido no olhar. Árvore para meu medo pousar. Morte. Garganta chama por meu novo nome. Minha casa. Teu corpo. Os muros que por nós esperam palavra e cor. Poesia.

Estrondoso meio-dia

Marianna Perna por Subtil Jessica, 2020.

Quando viro mulher
quero-te bem perto.

Quando encontro deus
tenho-te bem dentro.

E grito
a descoberta
por entre cobertas,

Grito de poesia à vida
por nos acompanhar
Assim fecundar a morte com sangue
para que não se derrame a noite
acima da luz.

Para sempre este belo meio-dia,
chovendo dedos e cabelos
por entre seu sorriso e sua lágrima.

Para quando se perdem todas as rotas

Em melodias de perda
As vozes derramadas
revisitam casas de solidão
onde habitamos

Algo que se perdeu
atormenta,
grita às minhas costas
Cartografia da dor.

Não passar incólume,
não desonrar o sangue da terra engolida
para meu corpo aqui pisar.
Aquém do tempo, refazer o mapa
costurar com nossos coágulos.

Tocada pelas mãos do Tempo
para finalmente ser a mãe da calma,
onde viver e morrer tornam a ser
apenas passos da grande rota.