A cerimônia de todas as vozes é fruto de intensas pesquisas da palavra poética em seus diversos estados e possibilidades – da poesia escrita à oral, sonora, em diálogo com a música e com os ruídos, além das diversas camadas que a voz pode conter, capazes de disparar no ouvinte-testemunha um estado poético e reflexivo. 

A artista autora do livro, além de poeta e performer, é também pesquisadora musical e historiadora e propõe nesta obra um diálogo com as vozes ancestrais femininas que nos compõem no agora. Um dos pontos mais notáveis da criação é o mergulho interior proposto através de uma experiência artística expansiva e híbrida, rumo à ancestralidade que reverbera no presente e assim permite redescobrir-se e reinventar-se. 

Para a poeta, A cerimônia de todas as vozes encontra seu ponto de partida na junção entre criação artística e vivência histórica das mulheres, sobretudo de mulheres escritoras dos séculos XIX e XX sufocadas em seu ofício, mas que de alguma forma deixaram sua obra como testemunho e abriram o caminho para que as mulheres hoje se expressem com mais liberdade e visibilidade. 

A obra lançada no formato livro-disco, com cada unidade contendo um CD físico, pela Editora Urutau em 2018, em parceria com o selo musical Índigo Azul (SP). Em nossa loja do site você pode adquirir seu livro, e a parte sonora, e se por ventura não possuir mais acesso à mídia do CD físico, a trilha também se encontra disponível nas plataformas digitais; confira as opções em nossa página de poesia sonora.

Nesta empreitada, foi fundamental a participação de um time de músicos e um time de mulheres na parte audiovisual. Assim, o livro-disco veio à luz através da colaboração dos músicos em uma espécie de laboratório coletivo ao longo de 2017. Os convidados para o time foram Felipe Antunes (Vitrola Sintética), Hélio Flanders (Vanguart), Carlos Gadelha, João Leão e César Ricardo. O livro conta com sensível prefácio do músico e compositor Tatá Aeroplano e da escritora e psicanalista Mariana Lancellotti.

Em sua contrapartida visual, a narrativa desenvolvida por Marianna foi abraçada pela filmmaker e produtora Gabriela Dworecki Domingues, com apoio de Nayana Fernandes e com a participação da fotógrafa Renata Terepins capturando todos os momentos dos “set” de gravação da narrativa visual desta personagem-mulher que Marianna interpreta, a percorrer diversos espaços em busca de si mesma, se perguntando “O que se encontra ao deixar a ilha de um eu perdido?”, em uma jornada caleidoscópica, que por vezes flerta com a loucura, o desalento e o estranhamento de si e do outro, mas que de dentro da própria so(m)bra do tempo erguem-se as vozes a dizer ser possível haver beleza no caos, conclamando que se cante e dance o seu nome até o fim, em êxtase, sem secar o mar do Ser. Foi em julho de 2017, de inverno ensolarado, que as quatro mulhere embarcaram em uma jornada por esses espaços em busca dos registros, passando por locais como a Casa do Sol, morada da escritora Hilda Hilst, em Campinas e hoje sede de seu Instituto (IHH); uma praia invernal (quase) deserta, no Guarujá; estradas e trilhas diversas que encontraram na jornada e cantinhos mágicos da Floresta dos Unicórnios (FLOU), sede do antigo Instituto Floresta dos Unicórnios, hoje espaço de eventos e santuário de animais, em Carapicuíba, local onde a autora já trabalhou com produção cultural e apoio em cerimônias/jornadas espirituais xamânicas.

O resultado foi um material fortemente simbólico, que narra a história do livro juntamente à camada sonora, compondo um todo poético inseparável que permeia tanto o livro físico, com imagens selecionadas em preto e branco para integrá-lo, quanto o material de videopoemas, e também o vídeo de projeção da performance ao vivo. Este último, Marianna Perna tem apresentado desde seu lançamento, em Maio de 2018, concebendo A cerimônia de todas as vozes também presencialmente como uma apresentação de poesia multimídia, ancorando-se na palavra poética contemplativa como potência de revelar o mundo absurdo que nos circunda e oferecer uma experiência de poesia expandida. A conclamação aqui é por romper o ambiente da tela limitada e das representações estáveis de si e do outro, borrando as fronteiras entre as linguagens com a esperança de também romper as fronteiras do eu. Ou seja, uma proposta que parte da palavra escrita e recria-se além dela, transbordando-se em estado poético vivo através da junção do som, da carne em dança & movimento, de projeções audiovisuais e músicos ao vivo. Esta apresentação já passou por espaços como: Cia da Revista (lançamento, em maio de 2018); Casa da Luz (temporada de 1 mês em 2018, com participação especial do músico holandês Tjalle Rens); Festival Vida & Arte em Fortaleza (CE); Sesc Av. Paulista; Flipei (RJ) 2018; O Andar (SP); Patuscada Bar, entre outros.