Encontrei-me com a prosa.

Marianna Perna, Peru, 2014.

Quantos trens não vi passar.
Quantas plataformas.
Às vezes cheias, às vezes tão silenciosas.
Quantas despedidas não me atravessaram, brutais. Mas de alguma estranha forma também emprestando-me seus olhos para que algo mudasse.

Ainda assim, um quente na garganta, a ânsia pelo desconhecido prontamente abafada, sem nem poder gritar-se no mundo. Sem poder mostrar sua face linda e louca aos olhos cheios de medo que encontrasse pelas avenidas.
Como sempre, chegava em casa querendo registrar — registrar algo tão terrível e grandioso, tão maravilhoso que eu descobrira, mas que mal poderia saber o quê era.
Impossível transbordar em palavras.

Como conceber um novo sentido;
como transcender os monstros sagrados que pairam,
que nunca nos deixarão?
Como cortar as fitas da banalidade, que me querem impedir de sentir e de acreditar?

Sem oxigênio nada pode florescer; de pronto só poderia é procurar os sons, as melodias, as vozes, as frases, as palavras alquímicas por onde escorrer a agonia.

Pois, se eu escrevo é para desafogar os caminhos tortuosos e inscrever a memória de algum desígnio, qualquer que seja. Despretensioso. Apenas saber que por aqui estive: respirei, contemplei, por vezes me desesperei; sobre a morte muito pensei e, sobretudo, inumeráveis fins presenciei. São as pernas que não cabem em si, a vida que não basta para se fazer boa, porque, pobre dela, se fez tão estragada. Molestada. Mas segurarei suas mãos até o final.

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