Os pés para os escombros

Salvador, Bahia, 2017.

(Para Cida Moreira)

Um prédio vazio
Traços de janelas
há muito perdidas
imperam os restos
de outras cidades


E os olhos?
E os passos,
mudos sobre tábuas
de vida esquecida?

Há de haver música
e poesia suficientes


Sobre o que se escorre
e quer dormir?

Há de haver
noite inflamada num amor
cheio de voz


Tão pleno de contrários
tão perene,

a brilhar

dentro da sombra do dia.

Quando no escuro se enxerga

Marianna Perna em cena, 2019.

A poesia nada-dança no preto oceano
do desconhecido
O corpo flecha sabe-sente sem a mente
Derramado em suor
sobre o que já deixa de ser
Para eu, enfim, Ser.

As janelas são paredes
Altas, sem fim
Cada parte mostra-se como caminho
Onde se habitar.
Em movimento.
Cada passo é o espaço
Cada giro mostra minha circunferência
Onde só existe o agora, não importa aonde os braços
queiram chegar.

Despir-se para alcançar a si.
E, no escuro Nada, repousar.

Poesia para uma década que finda

Marianna Perna, Peru 2014.

De repente a represa já existe, meus muros disfarçados em vitrines.
Como habitar o silêncio, tal qual uma estrela?

Como ascender, ao mesmo tempo em que se lançam as raízes

fundo à terra-casa de nosso ser?

A Poesia é a roupa que tenho desejado vestir todos os dias.

Imagens, margens

Marianna Perna por Renata Terepins, 2017.

paisagens de outro corpo. qual?
qual a ponte entre o eu e o outro,
o outro corpo-meu?

qual o olhar?

dilatação, asperezas expostas
superfícies amolecidas
pelo fluxo do passo tato

fato feito de terra e verde
sons em cheiros
atravessamentos?

câmera lenta feito raio.
qual o passo para fazer
o outro se ver?
no espelho do asfalto
no esvair do tempo
sem esperança
mas com um coração
esbanjante

seu pulso é alquimia
e de corpo em corpo faço-me paisagem-imagem
de tudo.

Outros outonos

Cemitério do Araçá – Maio 2020

tempo de fazer-se luz a penetrar paredes
irromper da pedra do silêncio perdido
contra rostos sem vida
em uma vida além tempo aqui agora

tempo de mirar os tijolos da incerteza
sorrir

abrir o peito para histórias nunca dantes adentradas
olhar fotografias antigas, rastros

tempo de ser perene
em meio à morte
de si
no outro

tempo de ser sua própria margem
sem nem dizer algo
ajoelhar-se no escuro
e assim permanecer vivo

inventando mundos
de céus
inesperados
abraços
pausas.

Como em uma coleção de contrários

passa o sorriso
passam as curvas
passam as folhas numinosas


passam também as lágrimas
uma vez tão amargas.

Passam as brasas de teu silêncio
a pele se regenera dia após dia
e isto também passa.


passa a cicatriz, e a nova marca escolhida.
passa uma calma
que parecia vir para ficar.

passam as certezas, passam as dúvidas
passa também a palavra última.

Volto atrás, dançar pode fazer bem.
Mas passa afinal a música


e passa o fim por mim
bem rente, com suas luzes.

E depois do fim,
como será?


Pois há em mim algo que não passa,
que persiste em querer
me conhecer
depois que tudo assim passar.