
Côncavexo em si
continente em ti
eu começo
e o avesso em nós
conjuga o seu mais perfeito nó.
poeta | artista multimídia | pesquisadora | terapeuta | fundadora Casa Urânia (SP)

Côncavexo em si
continente em ti
eu começo
e o avesso em nós
conjuga o seu mais perfeito nó.

(Para Cida Moreira)
Um prédio vazio
Traços de janelas
há muito perdidas
imperam os restos
de outras cidades
E os olhos?
E os passos,
mudos sobre tábuas
de vida esquecida?
Há de haver música
e poesia suficientes
Sobre o que se escorre
e quer dormir?
Há de haver
noite inflamada num amor
cheio de voz
Tão pleno de contrários
tão perene,
a brilhar
dentro da sombra do dia.

A poesia nada-dança no preto oceano
do desconhecido
O corpo flecha sabe-sente sem a mente
Derramado em suor
sobre o que já deixa de ser
Para eu, enfim, Ser.
As janelas são paredes
Altas, sem fim
Cada parte mostra-se como caminho
Onde se habitar.
Em movimento.
Cada passo é o espaço
Cada giro mostra minha circunferência
Onde só existe o agora, não importa aonde os braços
queiram chegar.
Despir-se para alcançar a si.
E, no escuro Nada, repousar.

Amortecer
a morte ser
ao anoitecer
tecer
amor ser-te
amor ter sido
ter um dia amado
e morrido.

De repente a represa já existe, meus muros disfarçados em vitrines.
Como habitar o silêncio, tal qual uma estrela?
Como ascender, ao mesmo tempo em que se lançam as raízes
fundo à terra-casa de nosso ser?
A Poesia é a roupa que tenho desejado vestir todos os dias.

paisagens de outro corpo. qual?
qual a ponte entre o eu e o outro,
o outro corpo-meu?
qual o olhar?
dilatação, asperezas expostas
superfícies amolecidas
pelo fluxo do passo tato
fato feito de terra e verde
sons em cheiros
atravessamentos?
câmera lenta feito raio.
qual o passo para fazer
o outro se ver?
no espelho do asfalto
no esvair do tempo
sem esperança
mas com um coração
esbanjante
seu pulso é alquimia
e de corpo em corpo faço-me paisagem-imagem
de tudo.

tempo de fazer-se luz a penetrar paredes
irromper da pedra do silêncio perdido
contra rostos sem vida
em uma vida além tempo aqui agora
tempo de mirar os tijolos da incerteza
sorrir
abrir o peito para histórias nunca dantes adentradas
olhar fotografias antigas, rastros
tempo de ser perene
em meio à morte
de si
no outro
tempo de ser sua própria margem
sem nem dizer algo
ajoelhar-se no escuro
e assim permanecer vivo
inventando mundos
de céus
inesperados
abraços
pausas.

passa o sorriso
passam as curvas
passam as folhas numinosas
passam também as lágrimas
uma vez tão amargas.
Passam as brasas de teu silêncio
a pele se regenera dia após dia
e isto também passa.
passa a cicatriz, e a nova marca escolhida.
passa uma calma
que parecia vir para ficar.
passam as certezas, passam as dúvidas
passa também a palavra última.
Volto atrás, dançar pode fazer bem.
Mas passa afinal a música
e passa o fim por mim
bem rente, com suas luzes.
E depois do fim,
como será?
Pois há em mim algo que não passa,
que persiste em querer
me conhecer
depois que tudo assim passar.